Epistemologia da Comunicação

Epistemologia é um conjunto de conhecimentos teórico-metodológicos ligados simbioticamente que permitem elaborar uma forma de investigar um objecto. A Epistemologia da Comunicação nasce assim com o objectivo de melhor compreender o que é a comunicação. Assim, neste trabalho irei abordar conceitos que são indispensáveis saber para melhor conhecer este processo.

Mas afinal o que é a Comunicação?

Comunicar entende-se como “comungar”, participar em algo juntamente com outro, formar comunidade, num processo pelo qual cada indivíduo dá ao outro algo que continua a ser seu também1. Podemos ainda dizer que o significado de comunicação também pode ser expresso na simples decomposição do termo “comum+acção”, querendo significar “acção em comum”, desde que se leve em consideração que o “algo em comum” se refere a um mesmo objecto de consciência e não a coisas materiais, ou à propriedade de coisas materiais. A acção realizada não é sobre a matéria, mas sobre outrem, justamente aquela cuja intenção é realizar acção de duas ou mais consciências com objectivos comuns2.

A comunicação é o processo de transmitir a informação e compreensão de uma pessoa para a outra. Se não houver esta compreensão, não ocorre a comunicação. Assim, se uma pessoa transmitir uma mensagem e esta não for compreendida pela outra pessoa, a comunicação não se efectivou.

Luiz Martino, escreve “o termo comunicação não se aplica nem às propriedades ou ao modo de ser das coisas, nem exprime uma acção que reúne os membros de uma comunidade. Ele não designa nem o ser, nem a acção sobre a matéria, tão pouco a praxis social, mas um tipo de relação intencional exercida sobre outrem”3.

Para Colin Cherry, comunicação significa "compartilhar elementos de comportamento ou modos de vida, pela existência de um conjunto de regras"4.

Berlo, entende comunicação "como sendo o processo através do qual um indivíduo suscita uma resposta num outro indivíduo, ou seja, dirige um estímulo que visa favorecer uma alteração no receptor de forma a suscitar uma resposta"4.

Abraham Moles, define comunicação "como o processo de fazer participar um indivíduo, um grupo de indivíduos ou um organismo, situados numa dada época e lugar, nas experiências de outro, utilizando elementos comuns"4.

As teorias da comunicação podem ser generalizadas em três grandes áreas, são elas: as orientações gerais que pressupõem a comunicação como um processo complexo de interacção simbólica; os processos básicos que assumem que a interacção simbólica se apresenta como um sistema de emissão e recepção de mensagens codificadas, constituídas por sinais ou grupos de sinais formados através dos processos de pensamento humano e que tem significado para as pessoas, resultando assim um processo de mudança. Finalmente, a área dos contextos de comunicação que inclui quatro formas de comunicação distintas de organizar o acto comunicativo. São elas a Comunicação interpessoal; Comunicação grupal; comunicação organizacional e Comunicação de massas2.

O Processo de Comunicação

Para que se efective a comunicação linguística, é indispensável a existência de vários elementos: um emissor e um receptor entre os quais se estabelece um contacto, se passa uma mensagem. Neste processo, o emissor transmite uma mensagem ao receptor, usando um sistema de sinais linguísticos comum a ambos. O emissor e receptor estão inseridos num contexto que desempenha um papel de grau variável na codificação e descodificação da mensagem1.

No processo de comunicação, o emissor é a pessoa que pretende comunicar uma mensagem, pode ser chamada de fonte ou de origem. Aqui é importante destacar o significado, que corresponde à ideia, ao conceito que o emissor deseja comunicar. Assim como o codificador, o qual é constituído pelo mecanismo vocal para decifrar a mensagem.

A mensagem é a ideia que o emissor deseja comunicar. Na mensagem temos um canal, também chamado de veículo e é o espaço situado entre o emissor e o receptor. O ruído na mensagem é a perturbação dentro do processo de comunicação.

O receptor é quem recebe a mensagem, a quem esta é destinada. A etapa da comunicação feita pelo receptor pode ser dividida em descodificador, compreensão e regulamentação. O descodificador é estabelecido pelo mecanismo auditivo para decifrar a mensagem, para que o receptor a compreenda. A compreensão é o entendimento da mensagem pelo receptor. A regulamentação ocorre quando o receptor confirmar a mensagem recebida do emissor, representa a volta da mensagem enviada pelo emissor (Feedback). 

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Retirado de: esdpedroial.ccems.pt/edvisual/comunicacao.htm

De acordo com Gil, em comunicação, uma pessoa (emissor) tem uma ideia que pretende comunicar. Para tal utiliza o seu mecanismo vocal (codificador), que expressa sua mensagem em palavras. Essa mensagem, veiculada pelo ar (canal) é interpretada pela pessoa a quem se comunica (receptor), após sua decifração por seu mecanismo auditivo (descodificador). O receptor, após constatar que entendeu a mensagem (compreensão), esclarece a fonte acerca de seu entendimento (regulamentação)5.

Tipos de Comunicação

A comunicação é um processo psicológico pelo qual se realiza a transmissão interpessoal de ideias, sentimentos e atitudes que possibilitam e garantem a dinâmica grupal e a dinâmica social. A comunicação poderá, por isso mesmo, ser verbal ou não-verbal.

A comunicação verbal realiza-se por intermédio da linguagem, que, graças à sua estrutura simbólica, permite aos elementos de um grupo a comparticipação nas experiências actuais ou tradicionais desse grupo. Esta pode ser feita oralmente, através de pedidos, conversas, debates, discussões; ou por escrito, pelas cartas, telegramas, bilhetes, livros, jornais, entre outras.

A comunicação não-verbal, realizada através de processos empáticos, e eventualmente traduzível através de movimentos expressivos, estabelece nos grupos, ou nas relações interpessoais diádicas, um clima afectivo que condiciona a própria comunicação verbal, imprimindo à linguagem um segundo nível de significação1. A comunicação não-verbal é feita através da troca de sinais, o olhar, o gesto, postura, mímica. A comunicação por mímica é feita por gestos das mãos, do corpo, da face, as caretas; na comunicação pelo olhar, as pessoas costumam se entender pelo olhar. A comunicação feita pela postura é aquela em que o modo como nos sentamos, a posição do corpo, embora inconscientemente transmite uma mensagem. A comunicação por gestos, pode ser voluntária, como um beijo ou um cumprimento, mas também pode ser involuntária, como por exemplo, mãos que não param de mexer, o que nos indica tensão e, ou nervosismo.

 

Informação

Informação vem do latim informatio, onis (delinear, conceber ideia), dar forma ou moldar na mente. Assim, a informação é o resultado do processamento, manipulação e organização de dados, de tal forma que represente uma modificação (quantitativa ou qualitativa) no conhecimento do sistema (pessoa, animal ou máquina) que recebe.

Informação enquanto conceito, carrega uma diversidade de significados, do uso quotidiano ao técnico. Genericamente, o conceito de informação está intimamente ligado às noções de restrição, comunicação, controle, dados, forma, instrução, conhecimento, significado, estímulo, padrão, percepção e representação de conhecimento.

O conceito, a noção que temos de informação é vago assim como intuitivo. Quando fazemos uma pergunta, estamos pedindo informação, quando vemos televisão ou um filme, estamos absorvendo informação. Ao ler um jornal, uma revista, ao ouvir música, sabemos que estamos lidando com algum tipo de informação. Até quando contamos uma piada estamos transmitindo informação. Usamos, absorvemos, assimilamos, manipulamos, transformamos, produzimos e transmitimos informação durante todo o tempo.

Informação é a qualidade da mensagem que um emissor envia para um ou mais receptores. Informação é sempre sobre alguma coisa (ocorrência de um evento etc.). Vista desta maneira, a informação não tem de ser precisa, ela pode ser verdadeira ou mentirosa, ou apenas um som (como o de um beijo). Mesmo um ruído inoportuno feito para inibir o fluxo de comunicação e criar equívoco, seria, sob esse ângulo, uma forma de informação. Todavia, em termos gerais, quanto maior a quantidade de informação na mensagem recebida, mais precisa ela é.

Comunicação vs Informação

A comunicação difere da informação na medida em que, a comunicação pressupõe, para além da mensagem a transmitir, a existência de duas ou mais consciências em presença e referidas consciente ou inconscientemente, compassiva ou agressivamente, uma mesma intencionalidade afectiva1. Informar é transmitir, mas transmitir não é comunicar. A comunicação é a relação, a inter-relação, ao passo que a informação é a mera difusão de dados.

No entanto, a comunicação encontra-se relacionada com a informação. A comunicação é dependente da informação, pois a comunicação consiste na transmissão de uma informação, se nenhuma informação for transmitida, então não existe comunicação.

 

Entropia

A origem da palavra entropia, são os radicais gregos em (dentro) e tropee (mudança, troca, alternativa). O termo foi muito trabalhado na física para designar a segunda lei da termodinâmica. São várias as maneiras de enunciar esta lei, sendo uma das mais completas: “Todo o sistema natural, quando deixado livre, evolui para um estado de máxima desordem, correspondente a uma entropia máxima.” Dito de outra forma, todo o sistema isolado tende para a maior homogeneidade possível pelo abrandamento e depois pela paragem de trocas no seu meio2.

De um modo geral, a entropia de um sistema é a medida da sua “desordem”. Assim, quanto mais organizado for um sistema, menor a sua entropia, e vice-versa.

Na comunicação, a entropia está relacionada com o grau de desorganização da mensagem, assim, quanto mais desorganizada for a mensagem, mais entrópica é. No entanto, a entropia pode ter uma utilização positiva na comunicação, pois uma mensagem extremamente ordenada é também uma mensagem previsível e, portanto, redundante. A característica de imprevisibilidade da entropia pode dar à comunicação um toque mais original.

Cada vez mais é utilizada a entropia na comunicação, exemplo disso são os programas televisivos, as próprias emissoras estão a deixar de lado a sua estrutura convencional e previsível e a obtar por uma mais ousada e criativa.

 

Redundância

Redundância é o excesso, repetição excessiva ou pleonasmo. Redundância pode ser entendida como a probabilidade de ocorrência de uma informação, ou seja, quanto mais provável a informação, mais redundante ela é. Por exemplo: Paris localiza-se na França, é uma frase 100% redundante. Uma frase sem redundâncias é: Lisboa é a capital de França6.

A redundância é o oposto da entropia. Resulta de uma previsibilidade elevada. Assim uma mensagem de baixa previsibilidade é entrópica e com muita informação, inversamente, uma mensagem de elevada previsibilidade é redundante e com pouca informação. A redundância desempenha um papel vital na comunicação para organizar e manter a compreensibilidade da mensagem.

A redundância, acrescenta ainda Lussato, permite ao ser humano, cuja capacidade de compreensão de uma mensagem é limitada, “compreender” melhor, ou seja, perceber melhor a “forma” da mensagem2.

Do ponto de vista da Teoria da Informação a redundância é a repetição de informações, cuja função é a de proteger as mensagens de qualquer sistema de comunicação contra possíveis falhas. A redundância está presente tanto na interacção quotidiana de duas pessoas, como na transmissão de dados de telecomunicações. Seu conceito está presente nos mais variados sistemas que necessitam de protecção contra falhas seja um hospital, um satélite ou um automóvel6.

A redundância também se encontra associada à economia da informação, isto é, quanto menos redundante mais económica será a mensagem. Ou seja, quanto menos dados forem transmitidos entre máquinas (computadores, satélites) mais banda de transmissão pode ser usada e mais informação pode circular. No entanto, para a comunicação (interpessoal ou difusão) a economia não importa, pois o importante é o entendimento das mensagens6.

Tipos de Redundância

Em conclusão podemos dizer que a redundância constitui um excesso de informação na mensagem, e que apresenta como principal função o superar dos problemas práticos da comunicação. Estes problemas podem estar associados à exactidão e à detecção de erros, ao canal e ao ruído, à natureza da mensagem ou à audiência. A redundância aumenta a forma do comunicado, mas facilita a sua percepção e compreensão.

Segundo o esquema de Shannon é possível distinguir quatro tipos de redundância, são eles:

a) A redundância do código resultante dos mecanismos da própria língua.

b) A redundância do emissor, ou a acção do sujeito falante sobre a substância do código utilizado.

c) A redundância do canal quer dizer, o uso paralelo de vários canais informativos (por exemplo o visual e o auditivo).

d) A redundância do interlocutor ou os conhecimentos subjectivos do participante do acto de comunicação. Os casos mais frequentes são a orientação no tema, atitude positiva, ou interesse particular, etc2.

 

Ruído

A primeira noção de ruído foi-nos deixada por Shannon e Weaver na sua teoria matemática da informação. Para eles, o ruído é responsável pelas interferências que prejudicam a transmissão perfeita da mensagem2.

De acordo com Carvalho, o ruído é identificado na comunicação humana como o conjunto de barreiras, obstáculos, acréscimos, erros e distorções que prejudicam a compreensão da mensagem. Isto significa que nem sempre aquilo que o emissor deseja informar é precisamente aquilo que o receptor decifra e compreende7. Segundo Gil, ruído é qualquer fonte de erro, distúrbio ou deformação da fidelidade na comunicação de uma mensagem, seja ela sonora, visual, escrita etc. E é este o desafio das comunicações nas empresas e na nossa vida diária5.

De um modo geral a palavra ruído significa barulho, som ou poluição sonora não desejada. O ruído é algo que é acrescentado ao sinal, entre a sua transmissão e a sua recepção e que não é pretendido pela fonte. O ruído apresenta diferentes padrões consoante a área em que está associado. Na electrónica o ruído pode ser associado à percepção acústica, por exemplo de um "chiado" característico ou aos "chuviscos" na recepção fraca de um sinal de televisão. De forma parecida a má definição de uma fotografia, quando evidente, também tem o sentido de ruído. Na Teoria da informação o ruído é considerado como portador de informação8.

O ruído pode ser classificado em ruído natural e artificial, ruído exógeno e endógeno e ruído repertório. O ruído natural refere-se a ruídos de causas naturais tais como ruídos atmosféricos, ruídos inerentes a dispositivos passivos e activos da electrónica, ao passo que o ruído artificial se refere a ruídos de causas artificiais, como por exemplo, ruídos de interferência. O ruído exógeno encontra-se relacionado com interferências externas ao processo de comunicação, como por exemplo outra mensagem. O ruído endógeno refere-se às interferências internas do processo de comunicação, como perda de mensagem durante seu transporte ou má utilização do código. Ruído de repertório tem a ver com interferências ocorridas directamente na produção ou interpretação da mensagem, provocadas pelo repertório dos emissores e receptores8.

Se o emissor dá conta de que há ruído (se ele próprio ouve o avião passar), pode repetir o que disse, por outras palavras, produzir novamente o sinal. Mas há casos em que o ruído se produz a um nível tal que o emissor pode ignorar tudo e estar persuadido de que o seu sinal chega sem problemas ao destino. Repetição pelas mesmas palavras ou por palavras parecidas, recurso a meios diversos para exprimir a mesma coisa constituem recursos à redundância como meio de luta contra o ruído2.

 

Bibliografia

1Fonseca, F. Irene. “Comunicação”, Enciclopédia Verbo, 7º volume. Lisboa: Edição Século XXI, 1998

2Freixo, Manuel João Vaz. Teorias e Modelos de Comunicação. Lisboa: Instituto Piaget, 2006

3Martino, Luiz C.. Teorias da Comunicação: Conceitos e Tendências. Vozes, 2001

4Cloutier, Jean. A era de EMEREC; Ministério da Educação e Investigação Cientifica, 1975

5Gil, António Carlos. Administração de recursos humanos: um enfoque profissional. São Paulo: Atlas, 1994

6 http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/R/redundancia.htm

7Carvalho, A. V.; Serafim, O.C. G. Administração de recursos humanos. 2 ed. São Paulo: Pioneira, 1995.

8 http://pt.wikipedia.org/wiki/Ru%C3%ADdo

3 Response to Epistemologia da Comunicação

4 de dezembro de 2009 às 04:37

Filomena,
obrigado pela forma completíssima como apresenta o tema.

Ctos.
PPM

4 de dezembro de 2009 às 13:58

Filomena,
Gostei muito da forma de abordagem ao tema assim como da organização e estrutura.
Quanto aos conteúdos de cada definição acho que estão adeguados.
Está muito completo. Parabéns

Cumps
Artur Teixeira

9 de dezembro de 2009 às 11:51

Olá Filomena!
Já estive a ver o teu trabalho e gostei da forma como abordaste os diferentes conceitos.
"Roubando" as palavras do Artur e do professor Pedro, o teu trabalho está muito completo.
PARABÉNS!
Cumprimentos
Olga Tavares

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